segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Sr Pedro Sorveteiro - Lendário entre os Amigos

Anos 1970,  Vila industrial construída  à volta da Companhia Brasileira de Alumínio na antiga Comendador Rodovalho, município de Mairink atualmente município de Alumínio Estado de São Paulo no Brasil.
Era uma Vila dinâmica em seu apogeu e constante crescimento, na acelerada época dos governos militares, que embora muito se atribua como tendo sido ditatorial, manteve Ordem e Progresso.
Ordem de tal maneira que era possível se deixar roupas nos varais, carros estacionados na rua com chave no contato, ir e vir com segurança, e comprar sorvetes fiado!
Havia controle rígido, menores de 14 anos não podiam permanecer na rua, sem que houvesse motivo muito justificável bem como maiores desocupados.
Havia pontos de encontro para bate papo, um deles na cabine de energia, na esquina, estratégica com travessões de concreto em que era possível se sentar no de cima e apoiar os pés no de baixo, e as conversas e piadas eram diversão garantida.
Os olhos esbugalhados da rapaziada se voltavam lá na curvinha onde iniciava a avenida, aos últimos instantes da sirene das 22 horas.
Nem ainda havia terminado, apontava o pequeno fusca preto e branco da Polícia com  O Caminhão dentro - apelido do Edson - comissário  de menores, acompanhado do guarda no patrulhamento noturno.
- Lá vem o Caminhão! Salve-se quem puder!
Neguinho se escondia nos jardins ao redor nalguma casa de conhecidos para não ser pego, levado no carro até a casa onde o Pai recebia uma descompostura, se o menor não tivesse ocupação para exceder o horário.
Além da bronca, vinha a surra após a saída das autoridades.
Pais eram homens que não permitiam seus filhos saírem do controle e jamais perturbarem quem quer que fosse.
Isso poderia comprometer até seu emprego, que não era coisa assim fácil de se ajeitar!
Obvio que em nossa infância, a rebeldia a tais regras era um Desafio motivador, em limites que não virassem contravenções puníveis ao extremo.
Ninguém ali desejava ser excluído ou taxado de delinquente.
Era uma malandragem milimetricamente calculada!
A grande metalúrgica era um campo fértil e motivador ao profissionalismo, onde aprendizes aos 14 anos tinham a esplêndida oportunidade de iniciação no mundo tecnológico industrial.
Resultou daquilo Homens de valor que atuam pelo mundo afora por terem se tornado mestres em suas profissões.
A Escola era o principal meio para obtenção dos requisitos  fundamentais para adentrar a Portaria da Fábrica, sem a qual, o diretor Dr Figueirôa, não autorizaria, além de  exigir boas notas mensalmente apresentadas.
3 notas Vermelhas - R  U  A !
Quem não desejava à época mesmo em tenra idade, digo mesmo aos 10 anos empunhar uma marmita e vestir o capacete de segurança, ser funcionário da CBA?
Eu que já trabalhava na lanchonete de meus pais na portaria, ao levar e trazer marmita, ia pela  rua imaginando que os outros me vissem e pensassem que eu estaria indo para a Fábrica.
Caminhava resoluto, empinado, até que me vi ... de calças curtas!
Ali acabava minha fantasia,  precisava usar calças compridas e sapatos de segurança, minha aparência ainda era apenas de um menino!
Descobri recentemente, pelos relatos de amigos de idade próxima a minha, também tinham as mesmas visões do futuro que ali se apresentava tão precocemente.
Ahhh, mas senão aos 14, aos 18, tive meu dia de pertencer ao quadro de funcionários na CBA -  grupo Votorantim.

Mas até esse dia, trabalhei na lanchonete, firme nos estudos, ganhava meus trocados para os lanches e os deliciosos sorvetes.
Ali mesmo na portaria tinha o ponto fixo do mais extraordinário personagem das crianças e toda a piãozada, e as contas de fiado.
Sr PEDRO, a quem nunca soube o sobrenome, residia em São Roque e todo dia logo pela manhã, descia do ônibus, pegava suas pesadas caixas abarrotadas de sorvetes .
Vendia no Recreio ao lado muro do Grupo Escolar Comendador Rodovalho,  a criançada ia logo pedindo os famosos Eskimós - sorvete de creme com cobertura de chocolate, Groselha - o mais preferido, Limão e o inexistente na Holanda - Creme Holandês ( uma versão de leite puro com groselha muito saborosa e nutritiva), Abacaxi.
Sr Pedro incansável também oferecia sorte àquela  gente  pelos bilhetes da loteria Federal, Estadual, esportiva e sei lá mais o que.
Papai os abominava .
Isso norteou minha caminhada, pois também não gosto.
Entretanto, como falei de rebeldia, na adolescência,  até poucos anos de casado, raramente, mas por pura brincadeira, me aventurei a comprar uns bilhetes.
Como minha esposa sempre sonhava com cobra, nascida no norte do Paraná  eram temíveis pelo tamanho e abundância, levando até nome de cidades como Cascavel, ela dizia que eu comprasse.
Lá ia eu buscar o 35 -  Cobra.
Raramente achava, quando não, dava 35!
As vezes  34 ou 36, se não me falha memória, mas raro 35!
 Sr Pedro dizia, leva o 34...
Não, só se for 35!

Enfim, logo deixei, deu ao menos algumas trocas.
Dinheiro jogado fora!
Mas Sr Pedro vivia de Sorvetes, bilhetes e alguns pequenos rolos com seus clientes fiéis.
Ao seu entorno vieram vários com doces, frutas e roupas.
Mas, ficaram apenas Sr Pedro e a outra lendária Cida, com suas cocadas e o mais famoso e bem torrado Amendoim em forno a lenha do Sr Chico, seu Pai.
Este dominava no campo de futebol, aos domingos de jogos ou desfiles monumentais que a cidade promovia nas datas magnas do Brasil, onde se podia ver a multidão esfegando os dedos para descasca-los.
Ao fim de jogos era uma sujeira só de cascas de amendoim.
A torcida enfurecida chingando o juiz de ladrão e esfregando a mão e Sr Chico ganhando seu tostão!!!

Alumínio foi para aquela geração um lugar fértil de amizades, diversão e oportunidades de crescimento, onde todos quase sem exceção trabalhavam, sendo motivados e estimulados pelo lema -Ordem e Progresso  - Slogan de nossa amada Bandeira do Brasil.


Gerson Getulio Machado 










Sr Pedro - Sorveteiro, bilheteiro, jornaleiro, conselheiro. Com Geraldo tratorista e amigão de todos.

terça-feira, 4 de setembro de 2018

O Movimento dos Prendedores


O Movimento dos 


prendedores













Numa manhã,mesmo antes do sol se firmar e aparecer, eles já estavam se organizando!
Posso afirmar que aprenderam, lá no empacotamento, onde foram forçados entrar no
 saquinho, presos e levados para expedição.
- Pois é!
Nem notamos que o excesso de organização, tende a induzir elementos,  unidos, criarem
 forças contrárias àquilo pelo qual resolvemos cria-los para deles fazermos uso.

Chego a ter pena ao vê-los, sob pressão, se tornarem  no que são.

Se pudessem escolher, talvez desejassem ser  transformados em algo requintado, viverem 

em ambientes ricos e nobres, ao abrigo do escaldante sol e a repentina chuva.

Incontáveis vezes submetidos ao extremo choque térmico do verão, tomam um banho
 gelado de gotas grossas a uma velocidade incrível, que os atinge sem piedade.

É certo que há um grito de alerta, uma voz salvadora, vindo de longe:

- Tá chovendo, tirem a roupa do varal !!!!

Mas essa voz, está preocupada na verdade tão somente com as roupas!

Esse grito, praticamente é um alerta de guerra.

É a guerra diária das donas de casa que igualmente pressionadas, sobrevivem com terror ao
 colocar aquele mundo de trapos pra secar.

Ah! Se não fossem esses brilhantes prendedores, tudo estaria perdido.

Na correria pra salvar os panos, esses coitados são deixados ali mesmo pendurados, quando

não, caem e para boa parte deles é fatal, tendo perdido sua força derivativa do elo que,

 embora os mantenha pressionados, são o sinal de vida e utilidade deles - A mola 
propulsora.

O arranque do patrimônio que a eles foi designado sustentarem é de tal ordem, que no 
apego aos trapos não são poucos os que perdem seus membros e cadê os hospitais 

destinados a recupera-los?

Simplesmente não existem.

Caem como frutas podres, salvo quando a própria patroa - famigerada *Rainha do lar* vem 
efetuar o resgate.

Maior sorte eles tem, se essa tal é murrinha, uma avarenta ao extremo! 

Se for pobre, tanto melhor pra eles, pela dificuldade em arregimentar novos prendedores, 

ao custo atualizado, cata-os e de imediato os acolhe em um balde ou nos bolsos do avental, 
ainda que seja ela a tomar os grossos pingos da tempestade em andamento.

Tais Generalas são extremamente zelosas se dando ao cuidado de mesmo havendo feridos 
entre os prendedores, amputar suas partes ou recolher as que encontra, para de dois 
fazerem um.

É certo que isso destona o batalhão. 

- Os iniformis fica prijudicado!!!

É comum, no entanto, encontrarmos num regimento alguns com parte negra e outros com o 
loiro distinto.
Se bem que são loiros tão somente quando jovens, na medida em que envelhecem se tornam 
negões!

Podemos dizer a partir desta evidência, que entre eles não existe preconceito de cor.










A infelicidade desses prendedores é o fato incontestável de pertencerem muito mais a classe pobre.
Para deixa-los mais perto da extinção, neste século de inovações, sistematicamente são 
substituídos por máquinas.

- Há fortes rumores na lavanderia da Rainha Ana, sobre a implantação desse cruel sistema.

- O argumento é forte de que esses mesmos prendedores tem acumulado e incentivado a 

cultura de fungos entre os trapos.

- A discussão está apenas no âmbito da rainha que sonha alto, apesar de viver nesses países 

produtores de empregadas domésticas e serviçais sem preparo.

Aconteceu ter sido fortemente influenciada, pela Princesa da mesma coorte, que após 

mudar-se para outro reinado, com visão futurista, se tornou em pouquíssimo tempo Rainha 

também.

Mesmo antes de se tornar rainha já tinha sido influenciada pelos hábitos daquele reino 
novo, onde,  na verdade, os hábitos sofisticados são há muito praticados, digo os mais 
nobres na história do mundo.
Sem ainda ter o título benemérito de rainha e sequer imaginar recebe-lo em tão curto 
espaço de tempo, já fazia das suas com essa máquina, que encontrou bem ali no banheiro de 
seu apartamento.

Essa jovem princesa, ficou toda esnobe, nunca teve acesso a tão importante acessório 
doméstico,  de repente ele é todo seu!

-  Já de cara conheceu a maquina tão sofisticada, que apita e posso dizer que de certa forma 
imita o grito de guerra, não prá recolhimento, mas para esnobar avisando que está 
encerrada a sessão tecnológica que faz em minutos o que os pobres prendedores tinham que 
esperar ali, cansados por um dia inteiro, e não poucas vezes por mais de um dia.

Os coitados fazem turnos dobrados, avançando noite afora...e isso os representantes de 
classe nunca se deram conta.
Exatamente por ser o reino de Ana , jovem e bagunçado, também é pobre.

Até os mais afortunados desse reino se utilizam dos prendedores.

Claro que não são as rainhas desses lares que manuseiam os  prendedores.

Como foi mencionado, elas se utilizam de serviçais que dominam sobre os prendedores.

Os coitados são exterminados aos montes, quase uma madeirificina ( carnificina de 
madeira).

- As pobre loca, que jamais gastariam tanto com si mesmas, não pensam duas vezes para 
requerer da rainha mais e mais novos prendedores para o regimento.

-Ali sim têm fardamento novo, e não chegam sequer ter contato com essa cultura de mofos 
que exerce pressão psicológica, além da contagiosa sobre todo o povo do lugar.

Não dá pra enganar, é só aproximar-se pra se sentir o clima e odor desse grupo baixo de 
seres que prevalecem nos casebres e puxadinhos ditos lavanderia .

Lavanderias na verdade, apenas nas últimas décadas podem ser assim chamadas, antes era 
apenas - tanque...quando não o córrego ou tina...

O outro fato oriundo dessa mesma classe social é a inevitável prática de preço para formar 
prendedores e disponibiliza-los para operação.

Popularizados em material plástico, são coloridos, entretanto têm menos tempo de vida.

É certo que com as cores, alguns se tornaram elegantes, têm pompa e prestigio.

- Assim como no caso dos seres humanos, há os que são afortunados e vão parar em 
estúdios de tv, fotografia ou vitrine de loja, mas dá pra contar nos dedos esses felizardos.

O duro mesmo é para os que vão servir em hospitais humanos e necrotérios, expostos ao 
mal cheiro o dia todo.










Esse movimento se iniciou na lavanderia há algum tempo atrás, logo da saída da princesa.
Há um documento daquela época que registra a insurreição insipiente.
Parece que as coisas estão mesmo mudadas por ali !
Voltando ainda mais, nos relatórios da época em que a jovem rainha, era apenas uma colegial, triste pelo desenvolvimento da cultura Mofa do ambiente em que vivia, ousou em dar cabo da situação, e desde então tem promovido e investido tudo o que tem acumulado no propósito de extermina-los.
A primeira forte atitude foi declarar GUERRA contra eles.
- Na época teve uma ideia radical – derrubar tudo e reconstruir a partir do zero.
Não foi exatamente assim que caminhou, mas radicalizou-se ao ponto de haver uma drástica operação de extermínio que resultou nesse momento. 
Analisando apenas pelo ângulo dos prendedores, instalou-se o medo em aposenta-los, apenas conservando-se a ideia antiga e obsoleta.
Isto não significa necessariamente que nunca teremos esses fiéis soldados fazendo parte do reino, apenas serão reduzidos, e os poucos que permanecerem serão destacados e pouco trabalharão.
Finalizando, do jeito que as coisas vão, nem trapos já existem para serem assim tão necessários.
Já há prendedores experimentando o que é sustentar grifes sob seus cuidados.
Certo é que são peças de promô, mas afinal o mais simples é um que leva duas letras como simbolo – H&M......!!!!
Têm origens nobres, uns vindos dos países nórdicos e vários lá de cima da terra do Tio SAN....   O que é isso afinal? Samuel, Sambastisão??? Samba canção?? 

Encerro meu relato, dizendo que prendedores unidos continuarão a praticar boas obras pelo mundo afora, mas por aqui, estão respirando aliviados, sem corromperem-se com fungos e o sol não os irá fustigar tanto.
Claro que isso tudo são rumores, mas onde há fumaça.......

Gerson Getulio Machado

março/abril2011





Domingo - tarde em Santana de Parnaíba - Cidade onde o pecado rouba a Paz

U m bonito marco na entrada da cidade ao lado do rio.  Após ter conhecido o centro histórico, partimos em direção a Pirapóra do Bom Je...