Era uma Vila dinâmica em seu apogeu e constante crescimento, na acelerada época dos governos militares, que embora muito se atribua como tendo sido ditatorial, manteve Ordem e Progresso.
Ordem de tal maneira que era possível se deixar roupas nos varais, carros estacionados na rua com chave no contato, ir e vir com segurança, e comprar sorvetes fiado!
Havia controle rígido, menores de 14 anos não podiam permanecer na rua, sem que houvesse motivo muito justificável bem como maiores desocupados.
Havia pontos de encontro para bate papo, um deles na cabine de energia, na esquina, estratégica com travessões de concreto em que era possível se sentar no de cima e apoiar os pés no de baixo, e as conversas e piadas eram diversão garantida.
Os olhos esbugalhados da rapaziada se voltavam lá na curvinha onde iniciava a avenida, aos últimos instantes da sirene das 22 horas.
Nem ainda havia terminado, apontava o pequeno fusca preto e branco da Polícia com O Caminhão dentro - apelido do Edson - comissário de menores, acompanhado do guarda no patrulhamento noturno.
- Lá vem o Caminhão! Salve-se quem puder!
Neguinho se escondia nos jardins ao redor nalguma casa de conhecidos para não ser pego, levado no carro até a casa onde o Pai recebia uma descompostura, se o menor não tivesse ocupação para exceder o horário.
Além da bronca, vinha a surra após a saída das autoridades.
Pais eram homens que não permitiam seus filhos saírem do controle e jamais perturbarem quem quer que fosse.
Isso poderia comprometer até seu emprego, que não era coisa assim fácil de se ajeitar!
Obvio que em nossa infância, a rebeldia a tais regras era um Desafio motivador, em limites que não virassem contravenções puníveis ao extremo.
Ninguém ali desejava ser excluído ou taxado de delinquente.
Era uma malandragem milimetricamente calculada!
A grande metalúrgica era um campo fértil e motivador ao profissionalismo, onde aprendizes aos 14 anos tinham a esplêndida oportunidade de iniciação no mundo tecnológico industrial.
Resultou daquilo Homens de valor que atuam pelo mundo afora por terem se tornado mestres em suas profissões.
A Escola era o principal meio para obtenção dos requisitos fundamentais para adentrar a Portaria da Fábrica, sem a qual, o diretor Dr Figueirôa, não autorizaria, além de exigir boas notas mensalmente apresentadas.
3 notas Vermelhas - R U A !
Quem não desejava à época mesmo em tenra idade, digo mesmo aos 10 anos empunhar uma marmita e vestir o capacete de segurança, ser funcionário da CBA?
Eu que já trabalhava na lanchonete de meus pais na portaria, ao levar e trazer marmita, ia pela rua imaginando que os outros me vissem e pensassem que eu estaria indo para a Fábrica.
Caminhava resoluto, empinado, até que me vi ... de calças curtas!
Ali acabava minha fantasia, precisava usar calças compridas e sapatos de segurança, minha aparência ainda era apenas de um menino!
Descobri recentemente, pelos relatos de amigos de idade próxima a minha, também tinham as mesmas visões do futuro que ali se apresentava tão precocemente.
Ahhh, mas senão aos 14, aos 18, tive meu dia de pertencer ao quadro de funcionários na CBA - grupo Votorantim.
Mas até esse dia, trabalhei na lanchonete, firme nos estudos, ganhava meus trocados para os lanches e os deliciosos sorvetes.
Ali mesmo na portaria tinha o ponto fixo do mais extraordinário personagem das crianças e toda a piãozada, e as contas de fiado.
Sr PEDRO, a quem nunca soube o sobrenome, residia em São Roque e todo dia logo pela manhã, descia do ônibus, pegava suas pesadas caixas abarrotadas de sorvetes .
Vendia no Recreio ao lado muro do Grupo Escolar Comendador Rodovalho, a criançada ia logo pedindo os famosos Eskimós - sorvete de creme com cobertura de chocolate, Groselha - o mais preferido, Limão e o inexistente na Holanda - Creme Holandês ( uma versão de leite puro com groselha muito saborosa e nutritiva), Abacaxi.
Sr Pedro incansável também oferecia sorte àquela gente pelos bilhetes da loteria Federal, Estadual, esportiva e sei lá mais o que.
Papai os abominava .
Isso norteou minha caminhada, pois também não gosto.
Entretanto, como falei de rebeldia, na adolescência, até poucos anos de casado, raramente, mas por pura brincadeira, me aventurei a comprar uns bilhetes.
Como minha esposa sempre sonhava com cobra, nascida no norte do Paraná eram temíveis pelo tamanho e abundância, levando até nome de cidades como Cascavel, ela dizia que eu comprasse.
Lá ia eu buscar o 35 - Cobra.
Raramente achava, quando não, dava 35!
As vezes 34 ou 36, se não me falha memória, mas raro 35!
Sr Pedro dizia, leva o 34...
Não, só se for 35!
Enfim, logo deixei, deu ao menos algumas trocas.
Dinheiro jogado fora!
Mas Sr Pedro vivia de Sorvetes, bilhetes e alguns pequenos rolos com seus clientes fiéis.
Ao seu entorno vieram vários com doces, frutas e roupas.
Mas, ficaram apenas Sr Pedro e a outra lendária Cida, com suas cocadas e o mais famoso e bem torrado Amendoim em forno a lenha do Sr Chico, seu Pai.
Este dominava no campo de futebol, aos domingos de jogos ou desfiles monumentais que a cidade promovia nas datas magnas do Brasil, onde se podia ver a multidão esfegando os dedos para descasca-los.
Ao fim de jogos era uma sujeira só de cascas de amendoim.
A torcida enfurecida chingando o juiz de ladrão e esfregando a mão e Sr Chico ganhando seu tostão!!!
Alumínio foi para aquela geração um lugar fértil de amizades, diversão e oportunidades de crescimento, onde todos quase sem exceção trabalhavam, sendo motivados e estimulados pelo lema -Ordem e Progresso - Slogan de nossa amada Bandeira do Brasil.
Gerson Getulio Machado
Sr Pedro - Sorveteiro, bilheteiro, jornaleiro, conselheiro. Com Geraldo tratorista e amigão de todos.
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